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Domingo, Setembro 30, 2007
O domingo amanheceu triste como poucos. Longo, inchado. Desde muito tempo não lembrava o que era estar só. Por mais esperado que fosse, fugia do óbvio, agarrava-se ao pouco que ainda tinha e ia levando a semana. Agora não, agora tudo foi dito, tudo foi posto à luz e nem uma parte do seu corpo deixa de doer. Doer de solidão, doer de medo. Ainda existe amor e ele não salva, desespera. Nem uma gota de ódio para aplacar a melancolia de mais um domingo estupidamente cinzento. Não há para onde ir e a idéia da morte ganha espaço. Achava que a solidão era capaz de ocupar o espaço de um corpo, de uma casa, no máximo. Mas não há lugar do mundo que não reflita a falta que ele faz, não há para onde ir. Não há mais fuga. Sentada no quarto, planejando os próximos passos, a luz apaga, o corpo esfria e ninguém sabe que ela se vai.
Milena 19:01
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Terça-feira, Setembro 18, 2007
Novamente, o fim.
Um pouco antes de morrer (eles sabiam que aconteceria inevitavelmente), ele implorou para que a cerimônia fúnebre fosse rápida, sem músicas nem fotos, apenas o necessário para satisfazer familiares e curiosos. Queria ser cremado. E queria, ao lado do seu corpo no caixão, que algumas coisas fossem queimadas com ele. Seu "corpo" - era assim que ele sempre se referia a ele mesmo depois da morte. Era possível que tivesse clareza que, depois do fim, aquela carne só seria a representação do que ele "foi", só seria um corpo, e não mais todo ele. Toda aquela junção de sonhos, esperanças, raivas, protestos, lembranças e feitos não seria mais ele. "Ele" iria continuar, malfeito, inacabado, fora de si, sem pouso, mas ia continuar. Na cama do quarto deles, onde seu corpo permaneceu por instantes depois do fim, ela relutava em satisfazer o desejo dele. Nunca acreditou que a morte chegaria perto dela. A cama deles, os corpos deles, os desejos deles. Ela desejava acreditar que ele ainda estava presente apesar do frio no corpo, apesar da imobilidade. Queria ficar ali por mais alguns dias, queria reunir forças para se separar do corpo amado, do seu cheiro ainda tão vivo, das suas mãos e daquele cabelo tão liso como o dela nunca pôde ser. Queria ser forte para poder colocar dentro do caixão todas as cartas e presentes que havia recebido dele. Queria jogar as fotos. Esse era o combinado. Combinaram não reviver seus momentos juntos, combinaram queimar a lembrança física e deixar que o resto se apagasse com o tempo. Ele achava que seria justo com ela. "Justo?", ela pensava agora. Justo seria que ele ainda estivesse lá, que seus corpos não viessem nunca a se separar. Nunca. Não gostava dessas palavras com efeitos generalizantes. Uma vez, contou-lhe um ditado budista (a verdade é que ela já não mais lembrava a origem - seria esse o primeiro indício da verdade sobre as memórias dos vivos?), algo como "amar é saber viver sem a pessoa amada". Ela entrou em pânico, ele, calmamente, disse acreditar que se fosse para ela ser um pouco (que fosse) mais feliz longe dele, abriria mão de sua presença. Ela, ainda em pânico. Ele tentando explicar sua crença num amor doador, ausente. Eram essas diferenças que a tinham atraído. Traído, agora. O corpo tinha sido levado ao cemitério sozinho. Ele não carregou nada de suas crônicas de amor, ele não levou nenhuma peça de roupa, nenhuma imagem, não levou nenhum disco nem o livro sobre crítica teatral. Não foi nem queimado. Todas as promessas foram traídas pela agonia de queimar o fim. Ela desejou ter morrido primeiro. Queria ter podido decidir pelo fim. Queria que aquele fosse o seu corpo. Queria, ao menos, poder saber onde o corpo estava, queria cartas para ler, fotos. Queria poder ler seu nome numa pedra e poder enfeitá-lo com coroas de orquídeas. E, agora estava só, era ela quem decidia. Escolheu ter um lugar pra regar com lágrimas.
Milena 20:04
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Terça-feira, Setembro 11, 2007
Ele anda tão desavergonhado que se mostra no ônibus, aparece no consultório do dentista, despenca no meio da rua. Sente falta das minhas tardes de sóis tórridos. Sente que em breve será derrotado novamente. Rins, próstatas, testículos e úteros vulneráveis. Nosso rosto não vai estar nas capas de revista, afinal. Afinal, não há por quê se esconder, nem pelo que sorrir ou chorar.
Ele é urbano, banal, viril e tolo. Eu sou simples.
Milena 21:54
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Sábado, Setembro 01, 2007
Nao fale desa Jurema se voce nao a conhece.
Nao fale dessa Jurema se vc nao a conhece
NÈ semente eh JUrema
è semenete que vira o remedio, o corondureiro
E semente
Cai lah busca
Bai bus
É semete
ªe semente
ºE rJurema
Vai cura
E semente
E semente
E Jurema
E jurema
queima
queirma
jurema
nao fale dessa jurema
se voce nao a conhece
nao fale dessa jurema
se vc nao a conhecde
e semente que nexe na mata
e se,ante
e semente que vira remedio, o curandeiro vai la buscar
e semente
e semnte
e jurem,a
e semente
e esemnte
e sjurema
e semete
vai la curar
e semete
e semente
e jurema
e semte
foi buscar foi buscar
encontrou
jurema
e semente
e semente
e jurema
mas vai curar
e emente
e semente
é semente
e jurema
+++++ uma pira muito louca +++++
Milena 17:56
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