Quarta-feira, Junho 25, 2008


A trilha sonora: "Tranqüila, levo a vida tranqüila, não tenho medo da morte, não tenho medo da morte. Não vou me preocupar... Tranqüila... Que me passe... a doença que me passe... a pobreza que me passe... a maldade que me passe... olho grande que me passe... a má sorte que passe... a tristeza da guerra”
A história: Tomou sua primeira, importante, irrevogável e perigosa decisão sozinha e responsavelmente hoje de manhã. Não foi aquela coisa “deixa o destino resolver”, foi ir contra tudo o que parecia óbvio e racional, sendo racional e óbvia, sob sua ótica. Sob sua ótica, as coisas são confusas um pouco, um pouco cheias de possibilidades, boas, ruins, novas e estranhas. Portas que se abrem e correm monstros para as sombras. Atrás delas e deles, sabe sem porquês, que há cores e brilhos. Tem alguma certeza: uma noite de sono e possíveis felicidades matinais. No momento, está agindo contra o óbvio, sem pedir conselhos ou temer a opinião de todos. E mesmo sem nada parecer claro agora, parece bom, ela diz, tem som de pássaros dizem que haverá céu azul entre seis e sete da manhã. Não tão simples como parece, ela sabe, mas a confiança essas horas é tudo o lhe resta.
A conclusão: Há vida lá fora!

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Segunda-feira, Junho 23, 2008


Respiro fundo tudo o que eu tenho pra dizer será dito de uma única vez num único golpe de ar por que você não desiste de toda a besteira e leva em conta os meus sonhos por que eu não sei o que esperar de você e não quero mais parecer forte e decidida. Tudo o que tenho pra te dizer não preciso mais repetir chega agora agora penso agora quero o contrário ser a busca ser o alvo e descansar.
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Sexta-feira, Junho 13, 2008


Acordei decorando insultos pra você. Imbecil, insano, inconseqüente, estúpido, insensível, retardado, louco, sem noção, idiota, filho da mãe, egoísta, incrédulo, falso, puto, traidor, mesquinho, egoísta. Acordei pronta pra te contar todos os sentimentos mais sujos e escondidos que guardei nos últimos trinta dias. Levantei com raiva de você e do mundo. Sem crenças, sem amor, sem beleza. Hoje quis acabar com a sua vida, com a minha, com o que restava. Decidi fazer em pedaços cada parte de você. Ia pôr fim na minha dor de cabeça infinita e no seu sorriso sarcástico. Ia deixar você sofrendo muito mais do que eu. E ser egoísta também, mesquinha também, fria, inconseqüente, dolorosamente só. Hoje acordei decorando insultos. Ensaiei usar o telefone. Pegar um carro e ir até você e te cuspir cada frase decorada, com cara de louca, com olhos de ódio, com a língua afiada. Mas como todos os outros dias, tomei um banho quente, deixei o rosto vermelho, coloquei minha melhor roupa e resolvi te esquecer. Esquecer até o ódio. E, como todos os dias, todos os sentimentos fortes e matutinos desapareceram junto com uma lágrima escondida atrás dos óculos escuros às onze da manhã.
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Quarta-feira, Junho 11, 2008


Dá pra sair? Vai, vai embora de uma vez. Me deixa. Não dá pra acordar todo dia e ver você do meu lado. Não posso mais. Ver os carros cinzas na rua e prender a respiração de medo de ser você. Não quero mais essa ameaça. Dá pra me deixar? Chega de memórias. Chega de você! (não) te quero, (não) te amo. Não é simples assim? Você pega suas coisas todas e sai. Vai. Não consigo mais viver do seu lado todos os dias vazios. Não consigo mais (não) atender teus chamados, (não) saber das suas histórias. Para mim é simples, (não) me importo mais. (não) Me deixa.

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Segunda-feira, Junho 09, 2008


Um abraço forte, muito forte. A respiração em ritmo acelerado e combinado. “Assim não vale”. Dito isto, beijou-a. Foi antes do que esperava, mas muito depois do que deveria. Beijou-a como não fazia há anos, entorpecido pelo álcool, apaixonado pelo momento. Uma longa noite de atenção, de carinho, de lembranças de um tempo perdido que não sabe se terá novamente. Sabe que era o que queria, mas sabe que quer muito mais. Agora se encontra novamente com a falta que já estava aprendendo a lidar, ou pelo menos assim cria. Sozinha, de banho tomado, em frente ao computador em que passa as horas mais iluminadas do seu dia, espera de verdade relembrar cada belo momento que se perdeu por causa da vertigem da noite, do som pulsante, das luzes e das trocas. Não sabe o que será agora, mas sabe que está só, novamente.

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Quarta-feira, Junho 04, 2008


Por algum motivo o dia é mais calmo quando você aparece cedo. Quando seu nome aparece, mesmo que silencioso, mesmo que escondido, mesmo que longe. Por algum motivo desconhecido, o dia é mais simples quando começa ao seu lado. Mesmo que isso só eu saiba, mesmo que o teu lado não seja mais meu e eu não tenha motivos verdadeiros para me alegar. Por razões irracionais, é sempre mais fácil com você.

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Terça-feira, Junho 03, 2008


Um olho no celular. Fecha a porta. Sai. Essa imagem não some. Antes, toma seu último banho. Olha as paredes sujas de mofo que tantas vezes pensou em limpar e depois desistia porque essa não era sua função. Sua função. Pensou tanto nisso. Pensou o que deveria e o que não deveria fazer e antes de voltar a ser a mesma pessoa de antes, cansou e deitou. Ia ser outra – mesmo que doesse. Se entregou ao há de vir e hoje de manhã, quando pensava que tinha feito tudo errado, lembrou que na verdade foi isso que sempre quis ser. E mais. Queria ter morado lá, limpado as paredes, as panelas, o quarto sujo de pó. Voltaria se pudesse e faria tudo. Faria o almoço. Ao contrário do que quer pensar, não há arrependimento. E nem ódio, como acha que tem às vezes, como quer ter para poder esquecer cada belo momento que projetou para o futuro. As viagens, as noites de domingo, os filmes nas poltronas que se juntam. É isso mesmo. Quer esquecer o futuro. Deveria querer, na verdade. Mas, os planos eram belos e bons. Eram justos, eram possíveis. Possíveis se não fosse a interrupção do tempo. Um lapso, uma massa de ar, um bolo de fubá. Pára. Google. Trabalha um pouco. Um olho no celular. Lembra do lençol que não cobria a cama por inteiro e quanto aquilo era chato. Lembra dos copos de requeijão e da última vez que passou pela porta dupla que separava dentro e fora. Saiu. Não tinha mais o que fazer com as chaves. Elas que estavam todas juntas, como resistiu fazer antes, como quis que fosse sempre. Deixou lá, à espera de que o mundo retorne seus sentidos. Não guardou as roupas, não escondeu os livros, as fotos, as cartas que nunca teve. Um olho no celular. Três remédios pela manhã, ginástica e banho de sol. Não é melhor agora, mas continuo.

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"a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões" - roland barthes

Velhos Latidos

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